quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Máscaras - Edson Vidigal




No teatro grego, onde tudo parece haver começado, eram apenas duas – a máscara da tragédia e a máscara da comédia.

Depois as dissimulações foram se tornando tão eloquentes que muitas pessoas as dispensaram enquanto adereços.

Acho que foi Jung, o da psicanálise, quem definiu a máscara como a simulação da individualidade. O Freud andou falando sobre as máscaras sociais.

Dependendo do papel que a pessoa vai desempenhar, que nem na novela da televisão, ela desenvolve uma personagem com gestos e sestros próprios, mudanças na voz, na maneira de olhar, e se capricham na maquiagem chegam a parecer irreconhecíveis.

Muitas vezes você conhece uma pessoa e um dia ela aparece num degrau acima ou algo parecido. Ela passa por você finge que não lhe vê, já não lhe cumprimenta ou se lhe olha é de soslaio, e aí você comenta adiante – olha só como ela ficou mascarada.

Na relação com o poder, qualquer que seja o patamar do poder, assumir uma máscara independe de gênero. A máscara é quase sempre o biombo atrás do qual se escondem não só insegurança, o despreparo para a vida, também a arrogância, a maldade e a inveja.

Oscar Wilde escreveu que a verdade flui por inteira quando a pessoa usa máscara. Fala tudo, é capaz de cometer assalto e até mata.

Houve um tempo em Veneza que era comum andar mascarado pelas ruas. A criminalidade aumentou e a muito custo o governo de então conseguiu limitar o uso de máscaras apenas durante o Carnaval.

No Maranhão, e já faz tempo, mais precisamente na Ilha de São Luís, o Governador em peleja aberta com o Prefeito, ambos querendo popularidade, quase estragam o Carnaval.

A tradição era os bailes de máscaras, e eram tantas as pessoas que aproveitavam aqueles folguedos para se soltarem escondidos nos fofões e nas máscaras, afinando a voz, que o cumprimento entre elas beirava a delação – ê Carnaval, eu te conheço Carnaval!

O Prefeito em nome da sagrada família ciosa de proteger suas filhas e também as tias solteironas, daquelas promiscuidades periféricas, baixou um decreto proibindo os bailes de máscaras.

No Maranhão, onde a máfia faliu e onde já se fez ate passeata contra concurso público, o Prefeito que não queria folião usando máscaras nos bailes levou a pior. Não cabe aqui falar do entrudo, herança antiga cultural e carnavalesca dos portugueses.

O Padre Vieira? Nem pensar. Não há um sermão dele tratando de entrudo no Convento das Mercês.

Ora, se não só em Veneza como de resto em todas as Cortes europeias as mulheres usavam máscaras à moda gatinho como arma de sedução, por que na ilha de São Luís haveriam de se proibir aquelas máscaras pretas escondendo a cabeça inteira até ao pescoço no estilo carrasco?

As múmias no Egito recebiam máscara antes de embarcarem no sarcófago para a viagem à imortalidade.

Em lá chegando, na imortalidade, imagina só, o segurança grandalhão, de cabeça raspada, óculos escuros, metido num terno preto, à frente do detector de metais, perguntando - quem é você? E a múmia mascarada – advinha se gosta de mim...

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